domingo, 30 de abril de 2017

FALTA DE TEMPO PARA TREINAR?

Há quem afirme que não treina por falta de tempo mas ao receber a resposta a um SMS, que enviei a um grande amigo meu, fiquei com muitas dúvidas quanto a essa alegada falta de tempo!
“Eu ontem fiz 3000km de avião, 200km da carro e 12 a correr. Hoje faço mais 450km de carro e 10 a correr (espero eu).”

Pois é, salvo raríssimas excepções não é falta de tempo, é falta de vontade mesmo!😀

segunda-feira, 24 de abril de 2017

UMA “COISA” COM 45,250 KM !


No passado dia 18 de Abril decorreram 30 anos sobre a minha participação na 2ª edição das 12 Horas de Vila Real de Santo António. Já escrevi um texto sobre isso aqui no blogue.
Passados que foram 30 anos achei que teria a sua “graça” comemorar a data e a única forma que via de o fazer era a correr!
Assim nasceu “A COISA” pois se não era um treino nem uma prova só podia ser a “A COISA”!
Comecei a germinar ideias sobre “A COISA” no verão do ano passado e em Outubro lancei-me nos treinos específicos. A ideia eram 3 meses de pré preparação ou seja Outubro, Novembro e Dezembro. E Janeiro, Fevereiro e Março seriam os meses mais intensos sendo que o mês de Abril já seria o treino em decrescendo até ao dia D ou seja o dia 18.
Basicamente gostaria que “A COISA” tivesse uma distancia simbolicamente acima dos 42,195 da maratona e apontei para os 45 quilómetros o que para a minha actual forma física e limitações de toda a ordem era excelente.

O treino era simples: 4 treinos semanais de corrida e um de bicicleta que seria simplesmente usado como recuperação. A fórmula do treino também era a mais básica e simples possível: Paulatinamente aumentar a carga de quilómetros metidos nas pernas, fazer alguns longos de 30 quilómetros, meter sempre uma quarta semana de recuperação depois de três semanas a aumentar a carga e usar sempre o princípio de a um treino mais forte segue-se outro mais fraco.
Se a mecânica do treino era simples, a execução do mesmo foi muito complexa com problemas vários.
Logo em Outubro fui acometido de fortes crises de ansiedade e tive de conseguir manter o treino mesmo em condições psicológicas extremamente difíceis.
Depois diversos problemas a nível do “esqueleto” faziam-me andar sempre com o credo na boca a ver se não me lesionava.
Foram muitos dias de pés metidos em água gelada, de massagens da planta dos pés com uma bola de golfe, de apanhar sustos, de ver o que está mal hoje e bem amanhã.
No meio disto tudo, problemas familiares e com a saúde de um familiar também se atravessaram no meu caminho.
Mantendo este projecto quase no secretismo total o meu grande apoio em termos psicológicos foi o João Lima que me aturou em dezenas de SMS e emails e sempre teve aquela palavra amiga, sempre acreditou que eu conseguiria, sempre me deu um apoio e força incondicional que nunca mais poderei esquecer.

E chegou o dia 18 de Abril e o João Lima cá estava para o apoio logístico pontualmente às 6:15 e às 6:31 a “COISA” arrancou!
O percurso era atravessar para o outro lado do Tejo na Ponte Dona Amélia e seguir até Santarém pelo Caminho do Tejo (usada nas peregrinações a Fátima).
Se pensam que vou fazer o relato exaustivo de como decorreu “A COISA” quilómetro a quilómetro vão ficar desiludidos
Tenho sensações, memórias de alguns pontos-chave mas, curiosamente, não guardo grandes memórias.
Esta ausência de memória talvez se deva ao facto da estratégia usada ser mesmo essa de apenas pensar em termos de 20 minutos que era o tempo que delimitava cada abastecimento e tentar pensar em pouco mais. Um género de piloto automático, de desligar o cérebro e dar às pernas!

O começo foi complicado, com uma enorme carga nervosa e parecia que tinha começado logo pelo muro da maratona!
Depois acalmei e entrei em velocidade cruzeiro e tudo normalizou.
Um dos meus grandes medos era o calor que se podia vir a fazer sentir e tive enorme sorte pois o dia revelou-se fresco, ventoso, céu nublado e até cairam algumas gotas de chuva!
O borrifador e o garrafão de 5 litros de água para os “duches” não foram usados! Nem protector solar foi necessário!

Para além de um tipo de piso em estradão com alguma pedra à mistura e nalguns locais mais deteriorado pela passagem dos tractores, de que eu não sou particular fã, e se torna massacrante ao longo dos quilómetros, a primeira grande dificuldade veio com a longa subida para Santarém que se geriu com muita calma.
Bem antes disso tive alguns problemas com os gémeos a queixarem-se, ou os quadricules mas que se iam gerindo e resolvendo com os abastecimentos que tinham soluções para quase tudo!

O encontro com o João Lima em Santarém foi quase milagroso pois eu entrei no centro da cidade de forma diferente da dele e ele esperou por mim não propriamente no local previsto.
Mas algum conhecimento da minha parte da cidade e alguma sorte resultaram num encontro perfeito e sem recurso a telemóvel!   
Com isto tudo julgo que saí de Santarém com 20 quilómetros no “lombo” e uma grande descida para gerir e se subir custa, descer causa muito mais estragos a nível muscular.
Até aos 30 quilómetros nem posso dizer que tivesse assim grandes dificuldades embora não fosse fresco que nem uma alface (!) mas fazia-se.

Dos 30 para os 35 já “A COISA” começou a pesar mais e quando cheguei a Porto de Muge já ia o que se pode chamar feito num oito! Faltariam uns três quilómetros para casa mas isso era se fosse a direito e ainda me faltavam mais alguns quilómetros para os desejados 45.

Combinámos novo encontro debaixo da Ponte Dona Amélia, junto ao Tejo, e aí chegado foi a vez de um abastecimento reforçado e decidi fazer os km em falta numa estrada que segue junto ao Tejo que começa em alcatrão e depois passa a terra batida.
Que ideia que eu fui ter! Estava um vendaval enorme e se nessa longa recta fui com vento de costas o retorno foi mesmo um autêntico inferno com um vento fortíssimo de frente e já sem força nenhuma! Duro, duro, duro mas duro!
Mas lá cheguei novamente ao carro do João Lima (tinha-lhe pedido para esperar por mim e me deixar fazer aquele bocado do percurso sozinho).
Com novo abastecimento, uma paragem mais longa e lá arranquei para os dois quilómetros e picos que me faltavam.

As pernas estavam mais perras que nunca mas “A COISA” estava feita! Ainda tive uma pequena dificuldade acrescida que foi ultrapassar uma máquina que estava a limpar a berma da estrada o que tornava a já de si estreita estrada em estrada só com uma faixa. Ainda fui fazendo sinais aos carros que passavam por mim para reduzirem a velocidade. Deviam pensar que eu era maluco mas quando chegavam à curva e viam a grande máquina em manobras logo entendiam.
Finalmente atravesso a pequena ponte de metálica, entro no Rossio e sigo pela ciclovia. Novo encontro com o João Lima, agora sem paragem nem abastecimento e ele segue de carro atrás de mim.


Finalmente a subida do Palácio, que fiz centenas de vezes em treino, a subida do palácio tantas fezes feita de bicicleta na minha infância.
Chego à minha rua, passo pelo João Lima parado junto do portão da minha casa, digo-lhe os km volto para trás e entro numa rua sem saída mesmo atrás da minha casa! Finalmente tenho noção do que acabei de fazer, acordo para o mundo e dou-me à festa! E que festa!
Levanto os braços, corro em zigue zague de braços abertos a fazer que voava (!) dou um tremendo berro, eu sei lá!


Ainda estou a pensar que se os recentes vizinhos ex imigrantes na Bélgica, julgo eu, viram aquela cena devem ter pensado que o vizinho é maluco! Por acaso não se enganaram, é mesmo!
Pronto 45,250 km em seis horas trinta e um minutos e 18 segundos!
Trinta anos depois de ter sido um dos pioneiros da ultra maratona em Portugal ainda cá estou e “vivo”!


Não fiz nada de especial! Mas consegui comemorar o facto de ter sido um dos pioneiros da Ultra Maratona em Portugal e, infelizmente, já não somos assim tantos ainda em actividade.
A dimensão dos desafios não se mede pelos km efectuados mas pelo esforço que eles representaram para quem os fez!
Para mim foi um grande desafio superado.
Foi uma vitória pessoal, de sangue, suor, lágrimas, raiva mas sobretudo de toneladas de amor para com os que correram ao meu lado ao longo destes 37 anos que levo nesta vida de ligação com a corrida. E muitos deles “foram comigo” nesta aventura porque um ultra maratonista nunca corre sozinho por mais solitário que aparentemente se encontre!
Nada disto seria possível sem o apoio de muita gente, muitos, ou quase todos, nem sabiam o que andava a preparar mas os seus exemplos, os seus comentários aos meus treinos, a sua amizade, foram fundamentais.

Mas cinco nomes têm que ser aqui publicados por uma questão de justiça:
João Lima: sem ele nada disto teria sido possível! Nada disto teria acontecido!

Mário Machado, sem os seus conselhos técnicos no que concerne aos abastecimentos, esta aventura não chegaria a bom porto.

O Egas Branco que como sempre e desde sempre esteve comigo neste projecto.

A minha mulher que me “aturou” durante a longa preparação para esta aventura. Sem ti, Augusta, a minha existência seria bem mais cinzenta e triste.

A minha mãe, a melhor mãe que um ultra maratonista pode ter e a sua sopa mágica de abóbora com farinha de milho que tão excelentes resultados deu e dá no carregamento de hidratos de carbono antes das grandes aventuras!



Para eles a minha gratidão não tem limites.
Estes 45,250 km são para o meu grande amigo António Matias, vencedor da primeira e segunda edição das 12 horas de Vila Real de Santo António, pioneiro na organização das provas de montanha / trail em Portugal. O “Pai” deste tipo de provas no nosso país. Força campeão!

E um abraço muito especial ao António Belo meu “adversário” nas 12 horas e que continua a correr, e já são muitas primaveras que leva em cima!

Nota: o meu agradecimento à Sofia pelo apoio voluntário e inesperado nos últimos km e pelas fotos. Também um dia ela será ultra maratonista!
   


terça-feira, 18 de abril de 2017

HÁ 30 ANOS AS 12 HORAS MAIS FELIZES DA MINHA VIDA!

Muitos de nós terão certamente gravado na memória aquele que foi o dia mais feliz das suas vidas (com excepção daqueles para quem o simples facto de viver, ou melhor sobreviver, é um fardo tão pesado e trágico que não há espaço para memórias de dias felizes mas isso é outro assunto que entra nas desigualdades desde mundo tão injusto e cruel).
Pois para além de ter bem viva na minha memória o dia mais feliz da minha vida tenho igualmente nela gravada aquelas que foram as mais felizes e mágicas 12 horas desta minha existência de quase 57 anos!
Faz precisamente 30 anos que vivi as 12 horas mais felizes da minha vida ao participar na segunda edição da ultra maratona 12 horas de Vila Real de Santo António.
Essa felicidade explica-se em muito poucas linhas: no “curto” intervalo de 12 horas tornei-me um dos pioneiros da ultra maratona em Portugal, ultrapassei a marca dos 100 quilómetros, tendo corrido 101,650 quilómetros, o que me levaria ao quinto lugar da classificação, eu um modesto corredor de pelotão que acabava as provas lá pelo segundo terço dos atletas chegados!
Quem quiser saber mais sobre essa segunda edição pode clicar aqui, pois o João Lima no seu blogue descreveu todas as edições dessa prova e no relato da segunda edição teve a amabilidade de focar um pouco mais pormenorizadamente a minha participação.
Este texto foi publicado automaticamente às 9 horas do dia 18 de Abril de 2017 precisamente na hora a que se deu a partida das 12 horas há 30 anos.
Na altura que este texto é publicado encontro-me algures no Ribatejo a correr justamente uma jornada comemorativa da minha participação nas 12 horas de Vila Real de Santo António e da passagem dos 30 anos. Dependendo do sucesso desta minha jornada darei relato dela aqui futuramente.
Este texto é dedicado à memória da malograda Analice Silva que tragicamente nos deixou sem conseguir ver chegados os 30 anos passados sobre a sua brilhante participação na prova.
Estas linhas são igualmente dedicadas a três grandes amigos que foram a chave do meu sucesso em Vila Real de Santo António: Egas Branco, Mário Machado, e António Matias (vencedor da primeira e segunda edições da prova).

12ª DIMENSÃO

Já cai a frescura, a doce frescura, do
princípio da noite.
Vila Real de Santo António transforma­-
se em terra de contos de fadas.
Há Musas, Sereias, Poetas, em todas as
esquinas.
Já não piso o negro e duro asfalto.
Flutuo sobre um manto de linho coberto
de rosas.
Corro para ti, corro por ti, meu amor.
Estou mais livre, mais selvagem, mais
puro.
Corro, corro, corro, sinto-me um cavalo
á solta na pradaria.
Estou no limiar do êxtase
Estou à beira de transformar um sonho.
Estou feliz, feliz, tão feliz!
Estou a chegar à 12ª dimensão!

Jorge Branco, Abril de 1987