sábado, 16 de dezembro de 2017

MEMÓRIAS DOS TRÊS ESTÁDIOS (I)

Egas Branco
Colaboração: Jorge Branco

MEMÓRIAS DOS TRÊS ESTÁDIOS (I)
- ESTÁDIO 1º DE MAIO, em Alvalade, Lisboa
- ESTÁDIO DO JAMOR (antigo EN - Estádio Nacional), na Cruz-Quebrada, Oeiras
- ESTÁDIO UNIVERSITÁRIO, na Cidade Universitária, Lisboa
           
CAPÍTULO I - OS INÍCIOS NO EN
1- A memória mais antiga do Jamor, que vale a pena mencionar, tem a ver com o desporto escolar dos anos 50 do século XX, com os campeonatos de futebol de 11, a nível dos liceus e escolas, incluindo o Colégio Militar e o Instituto dos Pupilos do Exército, então marcadamente classistas, com o Colégio só para filhos de oficiais e os Pupilos só para filhos de sargentos, isto durante o fascismo. Dado o regime de internato que ambos tinham, apresentavam equipas muito fortes em relação aos "amadores" das restantes escolas. Os jogos eram em geral disputados no campo de treinos, pelado que no Inverno se transformava rapidamente num enorme lodaçal. Só em casos muito especiais, como por exemplo a disputa de finais, se ia para o relvado de treinos. Mas apesar das condições desfavoráveis juntavam às vezes grandes assistências.
Joguei sempre, assim que tive idade (15 ou 16 anos), pelo meu liceu, o D. João de Castro. O responsável pela nossa equipa era o Professor de Educação Física, Serradas Duarte, de quem todos gostávamos muito pelo seu humanismo e mais tarde viríamos a saber que era efectivamente um homem de esquerda, tendo infelizmente falecido muito novo, ainda no nosso tempo de estudantes. Lembro-me da minha estreia, quando mandou avançar o puto, o benjamim da equipa de craques... Alguns dos quais se viriam a distinguir, conseguindo a internacionalização, noutras modalidades (andebol, atletismo, etc).



Mas o grande acontecimento desses anos, para além do futebol, terá sido a realização de uma grande competição internacional de corta-mato, o Cross das Nações, em meados dos anos 50, que antecederia os Mundiais, nos terrenos anexos, onde mais tarde pensariam fazer um hipódromo, o que felizmente nunca aconteceu e depois um campo de golfe que felizmente também pouco durou e finalmente uma pista de corta-mato, onde Carlos Lopes seria campeão mundial nos anos 80, num autêntico tapete de relva embora acidentado como convinha para um traçado de corta-mato. Portugal tinha então uma grande equipa, com aspirações ao pódio, cujo principal atleta era o famoso Manuel Faria, que sucedera a Filipe Luís e José Araújo e se notabilizara no estrangeiro com vitórias nas famosas S. Silvestres do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde derrotaria o famoso atleta soviético Vladimir Kuts, que foi um dos mais célebres fundistas de sempre. Todavia, com uma enorme presença de público a assistir, a desilusão foi muito grande, com os atletas portugueses muito longe do que se podia esperar. Obviamente que assisti a essa primeira grande competição de atletismo no nosso país.

Original da foto aqui

2- Muitos anos mais tarde, no início dos anos 80, voltaria lá, para treinar, em geral de manhã muito cedo, de Verão ou de Inverno, com quaisquer condições de tempo, antes do trabalho, em companhia do meu sobrinho Jorge Branco, podendo dizer que foi aí que começámos a ser corredores de fundo, ultrapassando definitivamente o chamado jogging que havíamos iniciado no Estádio 1º de Maio, do INATEL.
Aí também conheceríamos o Grupo de Manutenção do EN, dirigido pelo saudoso Professor Reis Pires, que havia sido um jogador internacional de basquetebol, a quem nos juntávamos episodicamente, embora aí o objectivo fosse a manutenção simples, ou a outros grupos de atletas (relembro os Mokas) e com bastante regularidade, aos fins-de-semana, ao grupo do grande atleta do Belenenses, Joaquim Branco, que fora recordista nacional de quase todas as distâncias do fundo e meio-fundo, mas nessa altura já veterano, e que muito nos aconselhou sobre a prática desta modalidade de que em pouco tempo nos tornámos fãs.

    
De tanta gente que conhecemos nessa época não podemos deixar de lembrar os responsáveis pelos balneários, do Estádio Principal, sr. João e dos Campos de Treinos, sr. Domingos, dois bons amigos de muitos anos, o último desde os anos 50, que nos iam contando saborosas histórias passadas com os craques desses anos, em especial do futebol.

CAP II  - O ESTÁDIO UNIVERSITÁRIO
1- Utilizámo-lo em vários períodos do nosso treino, de madrugada ou ao fim da tarde, o que no Inverno significava, de noite.
Relembrar os episódios que nos ligam ao Estádio, desde os velhos tempos da pista de cinza do estádio principal, que media 500 metros (quem teria sido a cabeça que decidiu isso, ignorando que as pistas de atletismo são de 400 metros?), é difícil, tantos eles são, alguns até trágico-cómicos, que um dia talvez conte (sem mencionar nomes para ninguém se sentir melindrado). Havia também uma pista de 400 metros, onde às vezes íamos fazer séries, mas fora do Estádio, só para treino uma vez que não tinha lugar para o público. Julgo que ainda existirá.






Falar dos atletas que então conhecemos será ainda mais difícil, alguns de quem a memória já não retém os nomes. Ou do responsável durante muitos anos do balneário principal, Sr. Oliveira (?), a quem, por iniciativa salvo erro do Eugénio Ruivo, se fez uma homenagem que consistiu em 24 horas a correr na pista principal, em que os atletas e participantes iam passando o testemunho para que a cadeia nunca fosse quebrada. Muitos anos mais tarde, estando ele já reformado, encontrei-o na Parede, no pequeno parque entre a estação de caminho-de-ferro e a praia, perto da casa onde ia passar uns dias no Verão, em casa de família ou amigos, aproveitando a praia e conversámos longamente sobre os tempos passados.
Quanto ao Eugénio Ruivo, presença habitual no Estádio, continua por aí bem activo, a correr também, e nunca esquecendo os anos em que foi o responsável pela Corrida da Festa do Avante, a que continua a não faltar. Eu é que já me limito só à caminhada, entre a Atalaia e o Seixal e volta, e (ou) às fotografias.
Mas desses tempos de treino no Universitário são inesquecíveis os dois Centros de Treino da Maratona, organizados pelo Professor Mário Machado, fundador e director da Revista Spiridon, e o nome mais conhecido e mais importante da Corrida para Todos no nosso País, a que continua ligado, continuando a ser o director técnico das corridas das pontes, 25 de Abril e Vasco da Gama em Lisboa, grandes sucessos de desporto de massas, envolvendo muitos milhares de participantes, cerca dos 40 mil e que continua a ser um corredor de grande nível como o demonstra a sua recente participação no Vietname numa duríssima competição em auto-suficiência.
Foto FB da Revista Spiridon

Participámos nos dois Centros e fizemos as maratonas que se seguiram, a primeira no Autódromo do Estoril, organizada pela Revista Spiridon. A segunda em Torres Vedras, uma vez que a da Revista Spiridon seria cancelada à última hora por impossibilidade de acordo com a direcção do Autódromo.
Até então as maratonas tinham participação muito limitada, havendo o preconceito, até de figuras responsáveis, de que exigiam um esforço prejudicial à saúde, e foi a partir daí que começaram a ser incluídas nos projectos de muitos corredores de pelotão, como nós.
Desses Centros retemos as sessões de séries na velha pista de 500 metros, à noite, com a pouquíssima iluminação que o Estádio tinha, porque não iam acender os projectores principais para nós.
Das sessões de V6, abreviatura da variante 6 do método do famoso professor e treinador Van Aken, em pista, que apreciávamos pelas mudanças constantes de andamento, sempre em crescendo, com resultados assinaláveis na nossa resistência e andamento.
Também das sessões de Fartlek, então novidade para muitos, que nos eram marcadas e que tentávamos cumprir à risca, em geral no fim-de-semana e de que gostávamos também muito, embora fossem "puxadas".
E dos treinos em grupo, que se faziam também durante o fim-de-semana, em Sintra, no Guincho, em Monsanto, na Aroeira, com acompanhamento dos coordenadores do Centro (João Pires, José Martins e outros), incluindo obviamente o responsável, o próprio Professor Mário Machado.





Anos depois tornar-se-ia habitual para nós ligar os dois Estádio durante um único treino, o do 1º de Maio com o Universitário, com partida e chegada ao primeiro, em treinos mais ou menos longos. E também fizemos a ligação de longa distância entre o EN e o EUL, com partida e chegada ao EN. Embora eu sonhasse com a ligação entre os 3 Estádios, nunca se chegou a tentar, devido à distância e principalmente ao desgaste provocado pelas duas duras travessias da Serra de Monsanto, o que para mim era nessa altura ainda demasiado, e foi apenas do EN ao Universitário e regresso, o treino que fizemos, tendo durado três horas e meia.
Das personalidades dessa época não podemos deixar de relembrar o saudoso Rolim, atleta extremamente resistente e de grande potencial para as grandes distâncias, que poderia ter sido um maratonista de topo mas a quem a falta de métodos de treino racionais prejudicou irremediavelmente. Anos mais tarde voltámo-lo a encontrar no Estádio 1º de Maio, no seu Inatel, instituição de que era funcionário. Treinava então nos terrenos anexos ao Ministério da Justiça e dali partia, às vezes em treino, para o 1º de Maio.
Ou os marchadores, com o campeão António Pinto em grande destaque que invariavelmente nos ultrapassava, na pista, ele a marchar e nós a corrermos.
Também o Carlos Lopes, o grande campeão, houve alturas em que era habitual cruzarmo-nos com ele no relvado da Reitoria da Universidade, a que dávamos umas voltas.
E muitos mais, alguns também bons Amigos que permanecem até hoje, embora já nos vejamos pouco.

CAP III - O ESTÁDIO 1º DE MAIO, DO INATEL
Mas foi neste estádio que demos verdadeiramente as primeiras passadas. Numa altura em que saber que entre os habituais daquele estádio estava o Sr. João, lendária figura durante muitos anos daquele espaço que, embora praticamente sem entrar em competições (fez apenas, e só às vezes, a Meia-Maratona da Nazaré), fazia treinos diários de mais de uma hora de duração, era para nós motivo de espanto e admiração.














A nossa evolução, por iniciativa do meu sobrinho Jorge Branco, foi no entanto rápida mas segura, com o início da nossa participação em competições, as primeiras das quais foram nas primeiras edições das famosas corridas do Círculo de Leitores e Corrida do Tejo, esta última no seu primitivo trajecto, que pessoalmente continuo a preferir. É que a chegada em frente do edifício principal da Câmara Municipal de Oeiras era carismática, com o seu sui-generis funil em serpentina.



Falar do Estádio 1º de Maio traz um ror de recordações e a lembrança de muitos amigos e companheiros de estrada e pista que por ali passaram, alguns infelizmente inacreditavelmente já desaparecidos.
E não posso deixar de citar entre alguns outros, o grande Armando de Sousa, magnífico atleta e bom amigo; o Cruz da TAP, cujo desaparecimento nos chocou a todos; o Dr. Jorge Coelho, apaixonado pela sua Académica, antigo membro duma república coimbrã e também um bom amigo; o Hernâni, dos mais velhos, a quem a certa altura chamávamos carinhosamente Dr. Niflux, porque se servia desse medicamento como uma espécie de banha da cobra; o Anacleto Pinto, ex-atleta doutra galáxia, grande campeão a nível internacional, chegando a ser o melhor júnior mundial, maratonista nos Jogos Olímpicos de Moscovo por se recusar a participar no boicote fascizante, e na opinião de muitos, um atleta com condições físicas potenciais para ser o melhor atleta português de fundo de sempre e também um bom amigo, sempre pronto a auxiliar-nos a nós modestos corredores de pelotão; e o inesquecível Fernando Rocha, da ARS, sempre pronto a ajudar os amigos e a quem nunca vi tomar uma atitude menos correcta com quem quer que fosse, e que durante anos foi um atleta sempre presente no Estádio 1º de Maio. Infelizmente deixou-nos muito cedo.
Dos outros, mulheres e homens, uns que já deixaram de correr e outros que continuam sempre e nunca desistem, gostaria de citá-los mas são muitos e continuo a sentir uma grande amizade por quase todos. Como se trata de um Estádio criado em princípio para usufruto dos trabalhadores, ali chegaram vindos principalmente das grandes empresas da zona - EDP, CTT, Telefones, Metro, Carris, IBM, TAP, etc, etc.
Mas talvez valha a pena citar o velho Tom, um norte-americano que um dia aportou na nossa cidade em trabalho e por aqui foi ficando com a companheira, e ali aparecia diariamente para treinar na pista, com quem brincávamos dizendo que adorava beber uns goles de whisky no final dos treinos. Quando o Jorge Branco cometeu as suas proezas de longa distância, que foram contadas ao Tom este só comentou. "Strong man!" Não sei nada dele. Um dia regressou ao seu país e nada mais se soube. Creio que o último contacto teria sido com alguém que há muitos anos foi fazer a maratona de Nova Iorque.
Mas para nós pensar em Estádio 1º de Maio, significa também pensar nas deambulações à sua volta, tantas e tão diversas que será impossível citar todas embora para nós as idas ao Universitário através do Campo Grande, as idas à Quinta das Conchas pela estrada do Lumiar, as idas ao Parque da Bela Vista ou à Rotunda do Aeroporto, talvez sejam as mais memoráveis.




E não resisto em citar outro grande amigo que há dias mo relembrava por e-mail:
"Egas, era nos tempos em que fazíamos um percurso de treino inventado por ti, e que eu chamei por piada a Pan-americana... Inatel, Estádio Universitário, bosque da Rotunda hoje Gomes Ferreira, parque da Bela Vista, Av.Eua, Inatel.  Duas horas e picos..." (José Dionísio, 8-Dez-2017)
Mas a que podia ter sido a nossa coroa de glória, era o meu sonho da ligação entre os 3 estádios, com partida do EN, travessia de Monsanto, passagem pelo EUL (universitário), passagem pelo 1º de Maio, e regresso ao EN, com o indispensável apoio e participação do Jorge.
Infelizmente não consegui realizá-lo nessa altura. Projectámos e realizámos apenas a ligação de ida e volta entre o EN e o EUL. Foram três horas e meia de duração que acabaram dramaticamente porque eram para ser feitas sempre a correr e no Dafundo este modesto atleta teve que parar e seguir a pé até quase ao EN, só voltando a correr no final. O Jorge, obviamente, fê-lo sem problemas de maior. Eu, dei o grande estoiro como se dizia na gíria... Tenho muita pena que não tivéssemos feito outra vez, porque era um percurso muito bonito e particularmente duro devido à travessia da Serra de Monsanto. Mas entretanto chegaram as competições de Montanha, a que hoje chamam Trail, e o nosso projecto ficou esquecido...

(para continuar)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

MEMÓRIA - AS "MINHAS MULHERES" DA CORRIDA "Honi soit qui mal y pense!" (escrito entre 21 e 22 de Setembro de 2017, só com recurso à memória)

Por: Egas Branco

ROSA MOTA


Foi nos anos 80 do século XX que a nossa campeã começou verdadeiramente a tornar-se uma grande atleta, a caminho de ser a melhor maratonista de sempre até à sua altura. Lembro-me da tarde em que, inesperadamente, porque poucos o julgariam possível, Rosa Mota em Atenas, nos Campeonatos Europeus de Atletismo, cometeu a grande proeza de vencer destacada a maratona. Quando a televisão, na altura apenas o canal público, nos mostrou Rosa à frente foi uma emoção, enorme quando a vimos entrar isolada no Estádio Olímpico.
Foi uma das maiores emoções porque passámos a ver televisão. Por tudo: porque os êxitos dos portugueses nas grandes competições desportivas, fora dos desportos de elite, praticados apenas pelas classes até então favorecidas (o hipismo, a vela e pouco mais) serem inexistentes, e principalmente, talvez, pela enorme simplicidade da atleta portuguesa que, a despeito de todos os triunfos e glórias, que foram até ao ouro olímpico, se manteve sempre inalterada ao longo de toda a sua carreira e depois dela terminada. Privilégio dos muito grandes, na sua actividade e na sua humanidade.
Por essa época Rosa continuava a apoiar a Corrida para Todos, ainda na sua fase inicial de crescimento, que desabrochou verdadeiramente durante e após a Revolução de Abril. Conservamos o seu autógrafo, obtido no final de uma prova em que se promovia também a construção da primeira pista de tartan no Porto, cidade natal de Rosa!

GRETE WAITZ


Tínhamos por ela uma admiração enorme, que se foi consolidando ao longo da vida, pela grande maratonista norueguesa, que demonstrou que a maratona poderia ser corrida com grande sucesso pelas mulheres. 
Desde sempre fui contra toda a discriminação, no Desporto também. Por isso admiro os discriminados que não aceitam a discriminação e contra ela lutam. Grete fê-lo e juntamente com o seu amigo Fred Lebow ajudou a lançar a maratona de Nova Iorque, que Fred havia criado do nada, e em que participou e venceu várias vezes.
Foi com ela que Fred correu a sua última maratona, em casa, já muito doente vindo a falecer pouco depois. Sendo comovente a fotografia que ambos deixaram para a posterioridade, terminando fraternalmente abraçados aquela famosa corrida.
Grete, também ela viria a ser atacada pelo cancro anos mais tarde e não resistiria à terrível enfermidade. Mas a sua imagem e determinação permanece para todos os que amam a Vida, no que ela tem de melhor e mais digno, no comportamento social e na mais importante das coisas secundárias, na célebre frase do Dr. Turblin, médico, estudioso do comportamento corpo humano em esforços prolongados, amante do Desporto, que segundo ele é justamente a actividade desportiva.

PAULA RADCLIFFE


Ainda continua a ser a recordista mundial da maratona (ou, se preferirem, detentora dos melhores tempos de sempre) em prova exclusivamente feminina ou em prova mista.
No entanto quando a vimos correr pela primeira vez, no Estádio 1º de Maio, em Lisboa, num meeting internacional, ainda era uma ilustre desconhecida. Mas nessa tarde venceu sem apelo nem agravo as estrelas do momento nos 10.000 metros, incluindo a que viria a ser uma das nossas campeãs olímpicas, Fernanda Ribeiro, se não me falha a memória. Desde o início da prova reparámos na atleta e calculámos que iria ser muito difícil às estrelas vencê-la.
Não esqueceremos o seu estilo muito particular, abanando a cabeça ao ritmo da competição, que haveria de se manter ao longo de toda a carreira, dando-lhe grandes triunfos.
Muitos anos mais tarde, quando já admirávamos esta grande campeã pelos seus extraordinários resultados e principalmente pelo espírito desportivo que demonstrava, assistimos pela TV ao seu trágico falhanço nos Jogos Olímpicos de Pequim, quando, por indisposição, teve que parar e não mais conseguiu recuperar. Outros teriam desistido. No entanto, como extraordinária desportista que era, embora superfavorita da maratona, não desistiu e concluiu num, para ela modestíssimo lugar. Depois seria mãe e voltaria aos grandes triunfos, como na maratona de Nova Iorque, para grande alegria dos seus admiradores, entre os quais modestamente me incluía.

RITA BORRALHO


Esta magnífica atleta que nos habituámos a admirar pelas suas frequentes participações ou apoios às provas para todos, foi-nos dando motivos de satisfação pelos resultados obtidos ao longo da sua carreira, nomeadamente e mais uma vez, na maratona, onde foi atleta de topo.
Mas há um momento muito saboroso da sua carreira que nunca esqueceremos. Ia disputar-se em Lisboa, na impecável pista de relva no Estádio Nacional, hoje do Jamor, expressamente preparada para o evento, o Campeonato Mundial de Cross, que o campeoníssimo Carlos Lopes haveria de vencer, deixando para trás os campeões africanos, já então a dominar grande parte das competições internacionais. Cada uma das equipas estrangeiras era acompanhada por um atleta português, também em treino. A Rita Borralho coube uma equipa dos países árabes mais fundamentalistas, talvez a Arábia Saudita, tanto quanto me recordo. Os atletas dessa equipa começaram por achar descabido serem acompanhados por uma mulher, ser que para eles era considerado com menos capacidade. E a Rita haveria de conduzi-los em treino até ao hotel onde se encontravam alojados. Conta-se que a atleta sabendo das discriminações de que eram (e ainda são) vítimas as mulheres naquele e noutros países de governo semelhante, resolveu dar-lhes uma lição, acelerando o andamento e puxando por eles, modestos atletas de segundo ou terceiro plano internacional. Não querendo dar parte de fracos seguiram "a deitar os bofes pela boca" atrás da nossa campeã. Quando se soube cá fora da história a risada foi geral (e também a satisfação pela lição dada).
Numa nota pessoal: cheguei a treinar naquela belíssimo tapete de relva, o melhor em que corri em toda a vida, assim que a pista foi aberta depois do Mundial. Infelizmente, meses depois, sem manutenção, voltou a transformar-se no nosso velho percurso de cross, de lama e terra batida irregular, com alguns tufos de erva, às vezes percorrido por um frio gélido, onde durante tantos anos treinámos, de inverno a inverno.

AURORA CUNHA


Lembradas a Rosa e a Rita mal pareceria se não se citasse a Aurora. Trio inesquecível, daqueles anos, que muito admirávamos.
Nunca nos deixámos influenciar pelas tricas inventadas e fomentadas pelo mau jornalismo que também existia naqueles tempos saídos da Revolução de Abril, e que nesse aspecto não é diferente do actual, agora até bem pior por nos faltarem jornalistas desportivos da dimensão de um Carlos Pinhão, de um Homero Serpa, de um Carlos Miranda, e outros, que obviamente não teriam lugar nos medíocres pasquins actuais à correio da manhã, que se estendem, no estilo, ao jornalismo desportivo.
 Aurora, já retirada, continua no entanto a ser alguém que aparece muito e colabora nas provas no seu Porto e Norte. O que nos causa sempre uma grande satisfação, lembrando a grande atleta que foi.

ALBERTINA DIAS


Pela elegância do seu estilo sobressaía nas provas portuguesas. Em pouco tempo tornou-se uma das atletas portuguesas mais destacadas pela sua qualidade, num tempo em que o atletismo, principalmente na disciplina de fundo, se tornava um dos principais no nosso País. Mas foi no País Basco que se tornaria Campeã Mundial de Cross, prova que seguimos em directo através da TV.
Não admirou também que nas suas incursões na maratona obtivesse um dos melhores tempos de sempre, o segundo melhor de sempre entre as atletas portuguesas.
Algumas vezes nos cruzámos com ela, na Corrida da Festa do Avante, na Atalaia, quando Albertina Dias, vencedora feminina, terminada a sua prova, vinha rebocar algum atleta amigo que ainda não havia chegado. Sempre com um sorriso fraterno e de grande simplicidade da enorme atleta que era.
Algumas infelicidades na sua vida pessoal e familiar encurtaram-lhe uma carreira que poderia ter sido ainda mais brilhante. Mas, para nós, é inesquecível. Ainda nos cruzaríamos com ela nas competições de montanha, mas estávamos já no final das nossas participações, continuando ela a atrair a atenção pelo seu estilo elegante inconfundível.

CARLA SACRAMENTO


Uma das nossas, e não só, maiores especialistas de meio-fundo de sempre. Vários títulos mundiais e participações olímpicas brilhantes.
As suas participações em Provas para Todos mostraram a sua postura humana e desportiva, nunca se arvorando em grande estrela.
Recordamos, por exemplo, a sua participação numa prova de milha, aberta a todos, disputada entre a Avenida da Liberdade e da República, que obviamente venceu.
Também na Corrida da Festa do Avante participou algumas vezes e era com grande admiração e satisfação que a víamos em fraternal convívio no final daquela famosa corrida, a mais participada das que abrem a época desportiva, no primeiro domingo de Setembro.

JOAQUINA FLORES


Começou tarde, já veterana, vindo a tornar-se no entanto numa das atletas mais medalhadas internacionalmente, em europeus e mundiais para veteranos.
A sua simplicidade e alegria tornavam-se contagiantes nos grandes pelotões de alguns milhares de atletas. Dizíamos com razão que ela era a atleta mais popular entre aquelas centenas ou milhares de atletas presentes.
Assisti no entanto a alguns dos seus treinos iniciais, quando era apenas uma principiante. No Estádio 1º de Maio, em Lisboa, tentando cumprir à risca o plano e as orientações traçadas pelo seu irmão, Dinis, também atleta veterano de muito bom nível. Não fosse ele zangar-se com a mana, por ela não cumprir o plano estabelecido, a que não faltavam a partir de certa altura as famosas séries.
Escusado será dizer que os dois manos e a respectiva família nunca faltavam às clássicas, incluindo as míticas Corrida do 1º de Maio e Corrida da Festa do Avante.

ANALICE SILVA


A primeira vez que participei e assisti a uma prova com esta inesquecível atleta, brasileira de nascimento mas há muitos anos radicada em Portugal, foi no Algarve, nas célebres e saudosas 12 Horas de Vila Real de Santo António, onde fui ainda nos meados dos anos 80 acompanhar e apoiar o meu sobrinho Jorge Branco. A Analice concluiria no top 10, pouco depois do Jorge, que seria 5º e também com mais de 100 km percorridos.
A partir daí acompanhámos com muito interesse e simpatia a sua actividade, cada vez mais virada para as grandes distâncias, da maratona à ultra-maratona e depois os 100 km e até mais, provocando a admiração de todos pela sua invulgar resistência física, para mais num pequeno e franzino corpo.
Parecia indestrutível, mesmo quando a certa altura nos provocou um susto, interrompendo a actividade desportiva sem aviso, correndo até o boato de que nos teria deixado.
Mas felizmente voltou, melhor do que nunca e rara era a clássica onde não estivesse presente e aumentando cada vez mais a quilometragem percorrida mensalmente. Posso afirmar que foi a atleta que mais fotografei porque a pergunta entre nós era quase sempre: "A Analice já passou?"
Até um dia, em que a terrível enfermidade, sempre ela, lhe bateu á porta. Pensámos que a Analice, com o seu espírito indomável, iria resistir e vencer mais uma vez. Não aconteceu assim. Deixou-nos para grande pesar nosso mas julgo que nenhum dos muitos corredores, anónimos ou não, do grande pelotão, que tiveram o privilégio de a conhecer a irá esquecer algum dia.

E DUAS MULHERES NA ORGANIZAÇÃO: LUCINDA MATIAS E MARIA MACHADO (DIDI)


Mas a organização não podia faltar! E, como se costuma dizer, por trás de grandes homens há quase sempre grandes mulheres, trata-se das companheiras de dois dos grandes iniciadores e criadores da Corrida para Todos, no nosso País: em estrada, o professor Mário Machado e no trail (então designado montanha) o professor António Matias.
Ambos atletas de excelente nível que, sem deixarem de correr, sendo professores de educação física se dedicaram à organização de corridas, com dois famosos troféus precursores de tudo o que surgiu depois - Troféu Spiridon, para a estrada, indo até à meia-maratona e maratona, e Troféu Terras de Aventura, para a montanha (trail). E Lucinda Matias e a professora Maria Machado (Didi), estiveram sempre nas organizações, num apoio inexcedível.

As nossas memórias, dada a nossa grande participação durante alguns anos nessas competições, são muitas. Mas há um momento, em especial, que nunca poderei esquecer, quando atravessei um dos momentos mais angustiantes da minha participação na corrida a pé, em montanha, com todas as suas dificuldades e até perigos, com a falta de oxigenação também a contribuir, e em que tive o apoio, hoje dir-se-ia psicológico, da Lucinda Matias e também obviamente do António Matias, como responsável pela organização, Tudo, no entanto, se resolveu rapidamente, mostrando como funcionava bem a organização daquelas provas nos tempos heróicos dos início do Trail/Montanha. Por razões pessoais não me vou alongar mais mas ficando apenas o registo do gesto fraterno e amigo.

Nota: Quase todas as fotos
foram retiradas da Net.


domingo, 24 de setembro de 2017

A CORRIDA DO MONGE ESTÁ DE VOLTA!


Aquela que é, muito provavelmente, a mais antiga competição de Trail em Portugal, está de volta depois de dois anos de interrupção!
A Corrida do Monge volta para a sua vigésima terceira edição desta vez com partida em Almoçageme no dia 26 de Novembro.
Foi no já longínquo ano de 1984 (a 29 de Junho) que teve lugar a primeira edição da Corrida do Monge.
Seriam preciso que passassem dez anos para a Corrida do Monge voltar a acontecer. Em 23 do 10 de 1994 teria lugar a segunda edição então já integrada num conjunto de provas de montanha lançadas pelo Terras de Aventura e que seria o começo do que hoje se designa por provas de Trail.
As edições da prova decorreram sem interrupção até ao ano de 2014 para voltar agora em 2017. Foram dois anos de saudade!
Durante as 23 edições da Corrida do Monge o local de partida mudou algumas vezes mas manteve sempre a parte “histórica” do percurso onde se inclui a mítica subida do Corta-Fogo. O mesmo vai acontecer este ano!
Não deixe de visitar ou revisitar esta “velha senhora” da Montanha / Trail em Portugal e aproveite para conhecer (ou voltar de novo) à linda Vila de Almoçageme!

Todos os dados sobre as edições desta prova foram obtidos no Historio de Resultado de Provas Portuguesas, criado pelo João Lima, e pode ser lido aqui


terça-feira, 5 de setembro de 2017

BOATOS!

Desfazendo os boatos que andam que andam a circular!😁
Sim ainda estou vivo! 
"Trabalho" do fim de semana passado: 
(E o "trabalho" continua durante a semana.)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

"XIUU"

Não digam a ninguém mas este blogue faz hoje oito anos!
Bem sabemos que está num estado meio comatoso mas o importante é que o pessoal aqui da redacção continua a correr, pedalar e caminhar por essas ruas, estradas e trilhos.
Prometemos qualquer dia voltar aqui a este espaço. Por enquanto matêm-se esta situação de preguiça! Mas a preguiça também é um direito!
Abraços a todos.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

MEMÓRIAS DO ATLETISMO - FRED LEBOW

MEMÓRIAS DO ATLETISMO - (II)

OS NOSSOS HERÓIS - FRED LEBOW (1932-1994)

(por Egas Branco)

Ao pensar numas curtas memórias sobre a Corrida, que acabou por ser o desporto que pratiquei durante mais tempo e com grande prazer, embora começasse já como atleta veterano, tendo-me iniciado em 1980, por desafio do meu então jovem sobrinho Jorge Branco, do blogue Último Quilómetro, que nos levou até à maratona, e à ultra-maratona, pensei em episódios em que são referidos nomes que todos conhecemos e admiramos, os que já andamos nisto há alguns anos, como Adriano Gomes, Albertina Dias, Anacleto Pinto, Analice Silva, António Matias, Carla Sacramento, Carlos Lopes, Eugénio Ruivo, Fred Lebow, Joaquim Branco, José Moutinho, Manuel Faria, Mário Machado, Paula Radcliffe, Rita Borralho, Rosa Mota, e mais alguns, todos sem excepção atletas que admiro e admirei, entre os quais alguns, poucos, que já infelizmente nos deixaram.

Depois da minha primeira memória - em que lembrei o grande atleta de meio-fundo e fundo, detentor de vários recordes nacionais em diferentes distâncias, Joaquim Branco, passo à segunda, em que o personagem é Fred Lebow, o mítico criador e durante muitos anos organizador da Maratona de Nova-Iorque, onde, infelizmente por motivos pessoais nunca corri, embora tivesse treinado mais de uma vez no Central Park, o grande parque urbano daquela urbe e onde a Maratona de Nova Iorque teve o seu início há quase meio século (1970).
Era num tempo em que quando tinha que dormir fora de casa por razões de trabalho levava sempre às costas a minha pequena mochila com o equipamento de corrida. Posso por isso dizer que eu, um modesto atleta amador e ainda mais modesto viajante, corri nalguns dos sítios mais emblemáticos das grandes urbes e que nunca ninguém me maçou, nem nunca me perdi. Agora com o mau estado actual do mundo talvez isso já não fosse possível, admito eu...

Foi em 1992, em 15 de Março, na 2ª edição da Meia Maratona de Lisboa, cujo director era como sempre o Professor Mário Machado, que me cruzei, finalmente, com o Fred Lebow, e o saudei, querendo manifestar-lhe a minha grande admiração por ele, naqueles brevíssimos instantes em que passámos um pelo outro, para mim julgo que já depois já retorno, uma vez que ele fez a prova mais lentamente.
A sua vinda foi possível obviamente porque o seu grande amigo e director da prova, Mário Machado, o deve ter convidado. Mas a sua participação foi muito discreta atendendo ao seu estado de saúde, embora houvesse ainda nessa altura a esperança de cura.
Alguns meses mais tarde em 1 de Novembro de 1992, ainda haveria de correr a sua última maratona, na sua cidade adoptiva, Nova Iorque, na companhia da sua grande amiga, Grete Waitz, uma das maiores maratonistas da história do atletismo. Terminaram juntos em 5h32'35" e não conseguiram reter as lágrimas na meta (ver emocionante imagem).
Fred Lebow faleceria em 9 de Outubro de 1994, vitimado pelo cancro que lhe havia sido diagnosticado em 1990 e contra o qual lutou com todas as forças.
Da sua participação em Lisboa, em 1992, anexo a fotografia que fez com outro grande campeão da maratona, o nosso Carlos Lopes.
Em 4 de Setembro de 2009 publiquei no Último Quilómetro um texto de homenagem a Fred Lebow, que pode ser lido aqui, e que julgo que mantém a sua actualidade. Não deixando então de citar que, curiosamente, ele começou por jogar ténis, tal como este modesto admirador, mas a conselho médico passou a correr, duas vezes por semana... Foi o início de tudo.

Grete Waitz a extraordinária atleta norueguesa que venceu nove vezes a Maratona de Nova Iorque, viria infelizmente a falecer também de cancro, em 2011, dois anos depois de eu ter escrito esse meu modesto texto, o que torna ainda mais emocionante a fotografia de ambos no final da prova, na última vez que os dois correram a maratona que Fred Lebow criou em 1970, com a participação de 126 homens e uma mulher.
Hoje esta maratona atinge o limite possível de inscrições, cerca de 40000.
A nossa grande admiração por ambos mantém-se para sempre.


Egas Branco, Lisboa, 26 de Julho de 2017